Calor! Muito calor! Ai, que calor! Nossa, mas está calor aqui, né?! Deus do céu, me dá meu leque! Este lugar é muito quente; não tem ar condicionado? Queria estar em casa, na frente do ventilador. Abre esta janela, por favor, vou morrer de calor aqui! Chega pra lá, está me dando calor… Abana, vai! Ô, meus santos, não poderiam soprar uma brisa?!
Cansou de ler? Pois é. Imagine eu, que digo tudo isso praticamente todos os dias. Calooor! Uma quentura cruel que ganhei de presente após andar tomando droga pesada, ops, digo, quimioterapia.
Há dois anos ando com leque na bolsa, seja verão ou inverno. Não importa o lugar, se é aberto, fechado, com ar condicionado ou ventilador. Eu sinto calooor, muito calor. Algo raro é alguém me ver agasalhada, com casaco, cachecol e outros acessórios invernais. Se me virem, pode apostar que está muito, muito frio. E eu adoro frio, simplesmente curto um dia nublado de temperatura bem baixa. Mas não há mais estação do ano confortável pra mim, a não ser que andasse dentro de uma caixa com refrigeração, tipo geladeira ambulante.
As seis sessões de quimioterapia que tomei quando me tratava do câncer de mama interromperam temporariamente minha ovulação, provocando uma menopausa induzida. Certa normalidade já começou a sinalizar por aqui, mas embora os médicos garantam que meus hormônios voltarão a se harmonizar, ainda sofro com ondas de calor intenso, que não estão nem aí para a hora ou local em que pretendem dar o ar da graça. E então, sobram motivos para rir, chorar, espernear, mandar qualquer um para algum lugar do mundo ou fora dele.
Uma pessoa nesta situação precisa ser ou estar só. No carro, por exemplo, exige o ar condicionado ligado, enquanto todos os outros ocupantes tiritam de frio. Em casa, as janelas estão sempre escancaradas e, mesmo em dias frios, está lá, o ar ligado, nos momentos em que a quentura é mais incômoda. Engraçado mesmo é na madrugada: a criatura joga as cobertas para o lado e em poucos minutos traz as cobertas de volta. E não é somente uma vez; é a noite toda e, claro, a cada jogada de cobertas para lá ou para cá, acorda. Sem contar o pobre do maridão, que tem que ouvir sempre um “chega pra lá, tô com calooor!”.
E não é apenas o calor. No meu caso, as ondas são precedidas de um mal estar estranho. O corpo é tomado repentinamente por um desconforto e, em seguida, sinto a nuca e o couro cabeludo pinicarem. Então, começa a esquentar muito, como se minha cabeça estivesse mergulhada no fundo de uma panela de água fervendo. E o resto do corpo entra na onda, suando até as pontas dos dedos dos pés. Este conjunto de sensações dura, ao todo, cerca de cinco minutos e ocorre várias vezes ao dia e à noite.
Resolvi escrever sobre meus calores porque sonhei que estava em Londres. Sempre disse que gostaria de morar na capital inglesa para ver os dias amanhecerem nublados. E olha que não sou depressiva; na verdade, gosto da tranquilidade que um céu cinza me transmite. E com tanta quentura no corpo poderia ser ótimo morar num lugar onde a temperatura média é de 18 a 22ºC no verão (julho no Brasil). No sonho, me encantei justamente com o clima frio, céu encoberto, grama molhada de orvalho, e dividi meu prazer com o filho e o maridão. Tudo isso aconteceu, com certeza, enquanto o corpo suava no lençol.








