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Anônimo na balada?

Por Giovana Damaceno  Categoria Blá blá blá

Anos atrás, um de meus melhores amigos decidiu que se mudaria de Volta Redonda para a capital paulista e nos disse que adoraria andar pelas ruas da cidade como anônimo. “Quero sentir a delícia de circular sem ser reconhecido”. E está lá até hoje. Claro que já passou tempo suficiente para ser olhado e cumprimentado pelo menos por alguns vizinhos de prédio, do condomínio ou os mais próximos do bairro, o dono da padaria, do bar.

Mas aqui, no interior, numa cidade em que todo mundo se encontra sempre nos mesmos lugares, é quase impossível não ser visto. Para se ter uma ideia, só há um shopping, onde já rolaram até uns flagras de traição. Em todos os finais de semana os baladeiros vão sempre às mesmas casas noturnas (as opções são poucas), encontram os mesmos amigos (ou desafetos), beijam na boca do cara ou da garota que ficou com o amigo ou amiga na semana anterior. E é comum, muito comum, encontrar por aí aquele pessoal que está no erro, mas tenta desesperadamente disfarçar. E enquanto isso pode ser trágico para a mulher ou marido que ficou em casa, para mim é motivo de muita risada.

Encontrei na noite o marido de uma amiga. Aliás, antes de encontrá-lo, apenas o avistei, de longe. Mas, pobre homem, ele também me viu. Digo coitado porque ao me descobrir em meio à multidão ficou lívido, desconcertado. E eu também, claro! Quem disse que gosto de ver marido de amiga sozinho na madrugada? Prefiro ignorar solenemente. Porém, quem está no erro não consegue se fazer de indiferente, cara de paisagem e fingir que está ali por acaso.

Veio falar comigo (quase saí correndo!). O maridão me cutucou, respirei fundo (muita vontade de rir; quem me conhece sabe o que é isso) e “oi, tudo bem?”. E ele “tô aqui fazendo um trabalho”. Nem preciso continuar o diálogo. O certo é que me senti desintegrar, pois não sabia se ria, se saía dali e o deixava falando para o vento, ou se tocava a conversa. Cara de pau é pouco: por optar pelo erro, por ter vindo falar comigo, por ter me dado satisfações sem eu pedir e, pior, por acreditar que eu acreditaria nele. Bobinho.

Há casos em que o cara pode até estar dizendo a verdade, mas difícil é engolir, conhecendo um e outro e como normalmente se comportam. Em certa ocasião soube que um amigo sofrera um acidente. Chocou a família inteira com a quantidade de ferimentos que ganhou no rosto, recebeu a compaixão de muita gente, foi visitado por parentes e tal. Acontece que o marmanjo se esqueceu que mora em Volta Redonda e que aqui, meu querido, anonimato não existe. Não passaram dois dias para a versão real dos fatos chegar a mim (chegou mesmo, sem que eu corresse atrás). Na verdade, o cínico estava com a amante e apanhou do marido dela. E a mulher do meu amigo, aquela santa (espero que não seja!).

Bem fazem aqueles que se deslocam pra bem longe pra cair na esbórnia. Conheço histórias de maridos errantes que se deliciam em leitos alheios no Rio, em São Paulo e até em Belo Horizonte. Mulheres também. Maridos com dupla opção sexual também. Uma amigo gay já me relatou o (des)encontro que teve com um conhecido aqui da cidade, montado de Drag, curtindo uma festinha privê numa cidade próxima. Outro indivíduo eu mesma vi, numa choperia no Rio. Falava grosso para amigos e família desta cidade operária, mas ficou verde quando percebeu que eu o observava, numa mesa com mais meia dúzia de amigos gays, todos muito à vontade, e ele, falando mais fino que a própria noiva.

Meu amigo que citei no início desta conversa foi atrás de uma vida de anônimo em Sampa, mas aposto que esta condição durou muito pouco. No máximo vive lá o que nós daqui não ficamos sabendo. Portanto, é necessário pisar em ovos, se a escolha pelo erro for inevitável. Nem é preciso um Big Brother para saber que sua rotina é vigiada, sempre. Mesmo se for popular apenas virtualmente. Há uma teoria que fala da possibilidade de que todo mundo conheça todo mundo, a partir da sua rede de amigos pessoais. Acredito nisso.


 

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