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Jul

27

Todo mundo sabe disso, ou deveria saber

Por Giovana Damaceno  Categoria Blá blá blá

Reclamo muito da (falta de) educação no trânsito. Vira e mexe esbravejo contra impacientes, apressadinhos, ansiosos, donos do mundo, que sempre pensam que suas prioridades estão acima dos direitos dos outros. Porém, esta semana, voltando do trabalho para casa bem devagar por conta de uma enxaqueca que mal me permitia o raciocínio, acabei atrás de um carro de autoescola, local que ninguém gosta de permanecer por mais que meio segundo. Pois ali fiquei e nem mesmo a forte dor de cabeça me atrapalhou a observação do festival de impropérios contra o estreante na arte de dirigir um automóvel.
Aceleração exagerada, gestos, palavrões, buzina, buzina e mais buzina. Cada um tinha um motivo muito justo para ficar exasperado, a ponto de cuspir marimbondos e abelhas à vontade, como se estivesse sozinho no alto de uma montanha. Mas nenhum deles está. Não só circulam por um espaço que é coletivo, como se esquecem que um dia estiveram naquela situação, a de aprendiz, num carro de autoescola ou em veículo particular, ensinados por pai, mãe, irmão, namorado, tio, amigo. E não custa nada lembrar o tamanho da insegurança que se sente nesta hora e que o cara precisa andar devagarzinho, como um dia fizemos também.
Era muito criança ainda quando acompanhei as aulas da minha irmã na autoescola. O instrutor chegava, buzinava, saíamos minha irmã e eu e ela assumia o volante. O passo a passo seguido a cada dia, até que ela conseguisse fazer o carro simplesmente andar, não foi algo que ocorre como num passe de mágica. Quem já dirige há muitos anos se esquece da confusão que se faz, nos primeiros momentos, para dar conta de tantos comandos ao mesmo tempo. Achava engraçado o instrutor dando as orientações. Ele falava cantando, bem devagar, como se estivesse ensinando uma retardada. Tive esta mesma experiência anos depois, quando encarei aulas numa autoescola e fazia questão de dizer a ele que não precisava cantar pra mim. Mas antes disso, conheci o volante de um veículo de outra forma.
Meu primeiro contato com a direção foi aos 16 anos, num caminhão Mercedes 1313. Namorava um caminhoneiro e ele resolveu que eu aprenderia a dirigir aquela coisa enorme. Não sei se foi trágico ou cômico meu primeiro contato com aquele volantão, mas a verdade é que, literalmente aos trancos, consegui fazer o caminhão sair do lugar. O pior é que num veículo deste tipo, não há o conforto de chegar a poltrona para a frente para os pés alcançarem os pedais, muito menos ajustar o encosto. É sentar, ligar e botar o negócio para rodar. E foram memoráveis as aulas; ganhei destreza nos comandos, desenvolvi meus reflexos e pude aprender rapidamente a controlar o veículo, pois pelo tamanho, o risco era maior e não havia tempo pra pensar.
Quando finalmente encarei as aulas regulares de uma autoescola, não digo que foi mais fácil, mas passei batida pelas primeiras lições, nas quais o instrutor cantante mostra onde ficam os comandos do carro, para quê existem e como funcionam. Liguei o carro, engatei a primeira e bora lá. A grande e temida diferença é que ele, sabendo do meu adiantamento, me levou direto para as ruas centrais da cidade. Quase cristalizei.
Dirigir é um ato de risco, pois ao contrário do que pensa a maioria dos condutores, envolve o motorista, seus caronas, os outros motoristas, os outros caronas, motociclistas (cuja maioria também se sente prioritária), ciclistas, pedestres, animais. Qualquer m* que fizerem, podem arrebentar com a vida alheia. E nem sei por que fico aqui relembrando isso; todo mundo sabe, ou deveria saber.
O fato é que passar alguns minutos assistindo ao aperto do futuro motorista me fez voltar lá atrás e rever os apuros que eu mesma passei. Quando finalmente pude ultrapassá-lo sem estresse, arrisquei uma olhadinha e ali estava um jovem, com os olhos fixos à frente, suando, expressão tensa. “Poderia ser meu filho”, pensei, “e gostaria muito que tivessem paciência com ele também”.

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