Mais uma vez me perguntam por meus cachos, não com expressão de admiração por minhas madeixas terem nascido enroscadinhas após um tratamento quimioterápico. Perguntam com aquela cara torcida, de quem é absolutamente a favor da ditadura do liso. E eu, mais uma vez, tento responder com indiferença. Antes até justificava: “Adoro meus cachos”, mas contra o que penso ser uma ignorância, não há o que discutir. Ignoro.
Antes de a quimioterapia me derrubar o cabelo não os tinha assim, enrolados. E queria-os exatamente deste jeito. Costumo dizer que, entre outras coisas, foi um presente do câncer de mama. Além dos despertamentos comuns a quem a vida dá uma segunda chance, posso ainda me namorar no espelho, muito satisfeita com cada um dos meus cachinhos. E faço questão que estejam sempre pra cima, exibindo volume, em nada certinho. Chamo a isso de autoaceitação.
Há poucos dias vi uma conhecida cuja imagem me chocou. Um tempo atrás tinha cabelos longos, ondulados, de um tom castanho dourado, que combinava perfeitamente com a pele e com o perfil dela. Pois bem. Hoje, logo abaixo dos ombros, os fios alisados, retos, sem nenhum movimento natural, e muito, muito pretos, lembram uma piaçava. Ou a Maga Patalógica, personagem de Walt Disney. Pode ser menos trabalhoso para cuidar no dia a dia, mas ela deve amanhecer sempre com a mesma cara. Pra mim não dá; odeio rotina.
Outra que me surpreendeu foi uma ex-aluna da faculdade que me causava grande admiração – e ela nem sabe disso – pelos volumosos cachos ruivos (!). De pele bem clara, o contraste com as madeixas vermelhas lhe emprestava um charme incomum. Porém, ela não se aceitava ao natural, mesmo linda. Encontrei-a meses atrás com o cabelo curto, liso feito uma tábua e pintado de preto-preto-preto. Que pena, que estrago! Mas, parece que se sente bem assim, então está bem, se assim se aceita.
Recebi dia desses um texto que fala da felicidade e da naturalidade das mulheres com cabelos ao vento. Estou incluída nesta turma. Primeiro pela autoaceitação e depois porque não tenho medo de janelas abertas, de correr, de tomar chuva, de dormir. Isso não é ótimo?!








